Museu do Ipiranga é fechado às pressas e só deve reabrir em 2022

Acesse:http://vejasp.abril.com.br/materia/museu-do-ipiranga-fechado-reforma

O jornalista e historiador Laurentino Gomes, autor de 1808 e1822, escreve sobre o péssimo estado de conservação da instituição, que guarda um acervo estimável da história do país

A fachada do local interditado no domingo (4): frequentadores foram pegos de surpresa pela notícia

A fachada do local interditado no domingo (4): frequentadores foram pegos de surpresa pela notícia (Foto: Mario Rodrigues )

O mais antigo e querido museu de São Paulo, o do Ipiranga, está fechado ao público desde o último fim de semana, sem previsão de reabertura. O fechamento, anunciado de forma abrupta no domingo (4) pela direção do Museu Paulista, braço da Universidade de São Paulo (USP) responsável pela administração do local, pegou os paulistanos de surpresa. Esta será a primeira vez em um século que o prédio não ficará aberto durante a Semana da Pátria, que marca as celebrações da Independência do Brasil. Em média, cerca de 3.000 pessoas visitam o lugar todos os dias. No feriado de 7 de Setembro o número mais que triplica. Entre os frequentadores assíduos estão professores e estudantes das escolas da capital e cidades vizinhas.

A desculpa oficial para o fechamento é que o museu precisa de reformas urgentes. O edifício, que acaba de comemorar 120 anos de inauguração, está caindo aos pedaços. No salão nobre, cuja parede principal ostenta o quadro Independência ou Morte, do paraibano Pedro Américo, o teto descolou-se e ameaçava cair sobre os visitantes. O forro de salas vizinhas está prestes a desabar por causa da infiltração de água da chuva. A pintura de vários ambientes se encontra rachada e apresenta mofo. As portas, com fechaduras antigas, emperram. Manchas de sujeira cobrem tanto um busto do marechal Floriano Peixoto, o segundo presidente da República, no subsolo, como um espelho que pertenceu à marquesa de Santos, amante do imperador Pedro I, em uma sala da torre leste do 1º andar. Uma carruagem do século XIX, no térreo, está com a forração rasgada em vários pontos. Na fachada do edifício, trechos sem reboco deixam os tijolos à mostra. Na parte dos fundos, onde bate menos sol, a tinta descascou e as paredes foram tomadas pelo musgo. O estado de abandono é uma ameaça não só à segurança dos visitantes mas também ao precioso acervo, composto de 150 000 peças, uma biblioteca com mais de 100 000 volumes e um centro de documentação com 40 000 papéis e manuscritos.

(Foto: Fotos de Mário Rodrigues)

Em qualquer lugar do mundo, prédios e monumentos históricos necessitam de manutenção com frequência. Isso, muitas vezes, exige o fechamento parcial ou mesmo total desses locais, enquanto passam por obras de restauração ou reforma. O que surpreende no caso do Ipiranga é que a situação tenha chegado a tal ponto de calamidade e que ninguém tenha tomado uma providência antes. A USP tem o museu sob sua responsabilidade há cinquenta anos, ou seja, meio século — o que torna ainda mais inexplicável a forma improvisada e atabalhoada com que a interdição foi anunciada no domingo passado.

DESTAQUES DO ACERVO DO MUSEU PAULISTA

Sala Cidade e Comércio - Capa 2334

1 de 5 Sala Cidade e Comércio (Foto: Mario Rodrigues)

Tela Capitania de Cabral - Capa 2334

2 de 5 Tela ‘Capitania de Cabral’ (Foto: Acervo Museu Paulista)

Tela Independência ou Morte - Capa 2334

3 de 5 Tela ‘Independência ou Morte’ (Foto: Acervo Museu Paulista)

Ânfora com água do Rio Uruguai - Capa 2234

4 de 5 Ânfora com água do Rio Uruguai (Foto: Helio Nobre )

Maquete da capital no século XIX - Capa 2334

5 de 5 Maquete da capital no século XIX (Foto: Heudes Regis )

Tudo foi feito às pressas e sem comunicação adequada. Os visitantes que chegaram nesse dia encontraram as portas fechadas. Um recital de quarteto de flautas, previsto para o fim de semana, foi cancelado. Aulas e cursos planejados no calendário do segundo semestre foram transferidos para outro endereço da USP, no bairro de Higienópolis. No próprio domingo, uma nota lacônica assinada pela diretora, Sheila Walbe Ornstein, e distribuída pela assessoria de imprensa, comunicava que o monumento estaria fechado a partir daquela data, em razão de um “diagnóstico preventivo da situação do prédio”.

Mesmo depois de anunciado o fechamento, ainda não é possível cravar quando as obras vão efetivamente começar. A expectativa é o ano que vem, após a conclusão de análises que estão sendo realizadas na estrutura e na pintura da edificação e a obtenção de autorizações em órgãos públicos. Também não há certeza de quanto tempo vão durar e quando o museu será reaberto ao público. Uma previsão, ainda a ser confirmada, é que o conjunto todo fique pronto só em 2022, ano do bicentenário da Independência. Serão oito anos de obras, cronograma surpreendente para um país que, no prazo de poucos meses, tem conseguido erguer quase uma dúzia de estádios de futebol de nível europeu para a Copa do Mundo de 2014.

A espada de dom Pedro I, quebrada no Monumento à Independência: abandono
A espada de dom Pedro I, quebrada no Monumento à Independência: abandono
(Foto: Mario Rodrigues)
Curiosidades  na internet