Libertadores no SBT, Globo sem Fórmula 1: a virada da cobertura de esporte

O atípico ano de 2020 transformou o mercado de transmissões esportivas no país. De um lado, a pandemia do novo coronavírus provocou uma bagunça generalizada no calendário e na economia. Do outro, a nova Medida Provisória 984 que, apesar de ter perdido fôlego em Brasília (deve caducar em outubro), permitiu aos clubes de futebol negociar isoladamente as exibições de seus jogos. Resultado: o time favorito para dominar os campeonatos acabou superado pelos rivais. Trata-se da Globo, que nas últimas décadas monopolizou as grandes atrações do esporte. Agora será diferente. Sem partidas para exibir durante a quarentena e com quedas drásticas em suas receitas, a emissora foi obrigada a cortar custos. Primeiro, peitou a Fifa na Justiça ao tentar adiar um pagamento de 90 milhões de dólares, alegando que a Covid-19 afetou os seus cofres. Em seguida, optou por não renovar com a Fórmula 1 a partir de 2021, encerrando uma parceria de quatro décadas. Por fim, tentou barganhar um novo acordo com a Conmebol pela Libertadores. O SBT aproveitou a brecha e ficou com a badalada competição. A pandemia não foi a única responsável pelas mudanças. Silvio Santos, o dono do SBT, nunca deu tanta bola para o futebol, mas mudou de ideia graças a um desdobramento da Medida Provisória 984/2020, assinada pelo presidente Jair Bolsonaro. A MP do Mandante possibilitou ao Flamengo transmitir jogos do Campeonato Carioca de forma independente. A Globo reagiu e rescindiu o contrato do torneio carioca, dando início a uma batalha jurídica. O clube, então, vendeu a decisão ao SBT, que se entusiasmou com a audiência. Foi aí que a Globo deu um passo em falso. Quis baixar seu contrato anual de 60 milhões de dólares com a Conmebol pela transmissão em TV aberta e fechada da Libertadores. Sem acordo, foi surpreendida com o anúncio de que a maior competição das Américas parou nas mãos da concorrente. Segundo o site Máquina do Esporte, o SBT ofereceu 15 milhões de dólares anuais pelos direitos de TV aberta e ainda exibirá os jogos no site e no aplicativo. O maior trunfo da emissora foi ceder espaço na transmissão aos parceiros da Conmebol, prática vetada pela Globo. “O resultado que tivemos na final do Campeonato Carioca foi fundamental para o investimento na Libertadores”, afirma Téo José, narrador contratado para ser o principal nome do SBT. Na estreia, a audiência foi razoável: o jogo do Palmeiras ficou atrás da partida do Corinthians na Globo e do reality A Fazenda, da Record, em São Paulo. FÓRMULA 1 - Fim da parceria: depois de quatro décadas, a Globo sai de cena – A Band também entrou no jogo. Primeiro com uma parceria de seu braço esportivo, o BandSports, com a confederação sul-americana para a criação da Conmebol TV, canal de pay-­per-view que assumiu os jogos que estavam com o SporTV. A entidade gera o sinal de transmissão e utiliza narradores e comentaristas do grupo Bandeirantes. O movimento mais importante da emissora se deu na TV aberta. Com o objetivo de retomar sua tradição esportiva, a Bandeirantes adquiriu os direitos dos campeonatos alemão e italiano. A programação dominical incluirá uma partida do Brasileirão feminino e masculino sub-20. Tudo isso dentro do reformulado Show do Esporte, programa que volta à grade depois de duas décadas e que ficará no ar das 10h30 às 21h30, com apresentação da ex-global Glenda Kozlowski (veja a seção Gente, na pág. 58). O ano ainda registrou a fusão dos canais esportivos da Disney (ESPN Brasil e Fox Sports), o que uniu as operações dos dois e dividiu as transmissões de seus campeonatos. As novidades diversificam o serviço, mas também dificultam o acesso a todas as partidas — e afetam o bolso dos torcedores. A divisão dos direitos do Brasileirão entre a Globo e a americana Turner deixou alguns jogos do campeonato nos últimos dois anos sem transmissão ao vivo. Já a recém-criada Conmebol TV só está disponível para assinantes da Claro/Net e da Sky e custará 39,90 reais por mês. Vender os direitos de uma mesma competição a muitas emissoras é uma tendência mundial. Resta saber se o torcedor brasileiro vai gostar das mudanças. Publicado em VEJA de 23 de setembro de 2020, edição nº 2705

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