Sequência de suicídios põe USP em alerta: “Precisamos saber onde erramos”

Matéria extraída de VejaSP

Nos últimos dois meses, três estudantes da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP tiraram a própria vida. A sequência acendeu um alerta entre os alunos e a direção da faculdade e da universidade. Um dos casos ocorreu dentro da Cidade Universitária, no Butantã, Zona Oeste da capital paulista, no conjunto residencial da universidade, o CRUSP.

Como consequência, a USP promete a criação de uma rede que melhore a comunicação entre os seus serviços de saúde mental. A FFLCH, por sua vez, afirma que irá criar canais voltados para o assunto e fará uma pesquisa para entender melhor a real situação mental dos seus alunos e colaboradores. O CRUSP, onde ocorreu um dos casos, conta com diversos problemas de infraestrutura: a universidade promete a realização de uma reforma, além da instalação de internet no local [veja detalhes abaixo].

Os alunos que cometeram suicídio, todos da graduação, eram dos cursos de letras, filosofia e geografia. Estudantes relatam à Vejinha que, infelizmente, casos do tipo não são incomuns. “Já lidamos com casos do tipo. Mas isso ocorreu em uma sequência, deixou a gente acabado. É uma situação muito difícil. Precisamos descobrir onde erramos, se erramos e o que podemos fazer”, diz o diretor da FFLCH, Paulo Martins.

A FFLCH é a faculdade da USP com o maior número de estudantes. “Tenho 14 000 alunos”, diz o professor. Na última terça-feira, ele e outros representantes de diversas áreas da universidade realizaram uma reunião para a criação de medidas que aumentem o apoio à saúde mental dentro da unidade. “Nunca tivemos um canal específico para a saúde mental”, admite Martins.

A universidade como um todo, no entanto, conta com programas como o Escritório de Saúde Mental e o Acolhe USP. Somente o Instituto de Psicologia possui cerca de 15 serviços voltados para o atendimento de alunos e de qualquer um que procurar ajuda. “Mas nem todos sabem que isso existe, a USP divulga menos do que deveria. E esses programas são insuficientes. Muitos não têm o formato ideal, tem uma periodicidade pequena”, aponta o estudante de ciências sociais, Davi Barbosa, 21.

No caso da FFLCH, após a reunião, a diretoria se comprometeu com seis iniciativas:

  • Distribuição de uma cartilha com informações básicas sobre saúde mental;
  • Criação do canal FFLCH pela vida, que deve funcionar por meio de e-mail, Whatsapp e telefone, com um voluntário que atende estudantes que precisam de ajuda;
  • Elaboração de uma pesquisa para levantamento da situação de “sofrimento de estudantes, funcionários e docentes”
  • Um programa de tutoria, em que docentes se responsabilizam por um grupo de alunos, para aconselhamento e encaminhamentos para serviços de atendimento;
  • Visitas regulares ao CRUSP;
  • Criação de rodas de conversa.

“A assistência à saúde mental na universidade existe desde quando eu era estudante, em 1980. Mas nós percebemos como, especialmente na última década, o número de suicídios como um todo aumentou, e na universidade não foi diferente”, diz o superintendente de Assistência Social da USP, Gerson Tomanari.

Ele afirma que em 2018 a reitoria criou o Escritório de Saúde Mental. “É formado por dezenas de psicólogos, voluntários. Neste ano, já atendemos mais de 450 pedidos de acolhimento. Um dos rapazes que se suicidou era atendido pelo escritório e, até agora, foi o único caso entre os atendidos que tirou a própria vida”, diz.

“Em janeiro deste ano mandamos um informe para todos os alunos sobre o Escritório, e tivemos uma enorme procura”. Após a sequência de suicídios, Gerson cita a criação de uma rede que visa melhorar a comunicação entre os mais de 30 serviços de assistência à saúde mental que existem nos campus da USP, incluindo a capital e cidades do interior.  “Estou construindo um diretório de saúde mental que tem como ambição formar essa rede. Se eu recebo um caso que eu sei que é especialidade, por exemplo, de Ribeirão Preto, posso fazer o encaminhamento, com atendimento online”, diz o superintendente.

“Mas os estudantes não participam da criação dessas iniciativas. Como fazer políticas de saúde mental sem nos ouvir? Cria-se um ambiente propício para que as pessoas adoeçam mentalmente”, critica o aluno de ciências sociais Davi Barbosa. “Saem questionamentos dos estudantes e existe um catalisador: a pandemia. Mas estamos aqui para escutar”, diz o diretor da FFLCH, Paulo Martins.